Papo gasolina

Os brasileiros tem uma relação única com os automóveis. E engraçado ver como é assunto falar sobre carros, todo mundo sabe os nomes das marcas, os modelos, as características. Depois de viver 30 anos no Brasil, e outro tanto aqui na Suíça, não resisto a tentação de escrever um texto sobre as diferenças que constatei entre as duas maneiras de se relacionar com os autos.
Quando cheguei aqui, no fim dos anos 80, a Europa vendia 13 milhões de unidades. Foi o auge, nunca mais se alcançou essa marca, e de la pra cá o numero de unidades vendidas só diminui ano a ano.
Evidentemente temos aqui um mercado hiper saturado, alem disso a nova geração não da a minima para automóveis, raros são os jovens que compram.
Penso na imagem do sujeito com uma Ferrari desfilando num domingo a tarde na avenida Batel em Curitiba, para ficar num exemplo da minha cidade. Aquilo provoca frenesi, as pessoas quase quebram o pescoço, babam, as mulheres molham as calcinhas, os babacas vão ao delírio. Uma Ferrari!!!! Uau!!!
Já aqui, alem de não existir o “desfile” dominical , as pessoas nem olham, e provavelmente a maioria das mulheres pensa : olha o babaca com problemas de afirmação. O que as faria realmente virar o pescoço seria muito mais o cara desfilando uma bicicleta, high-tec carbono, e claro um corpo de acordo.
Em alemão existem varias expressões que confirmam essa psique du role reinante aqui. Uma delas diz que o problema maior de se comprar uma maquina dessas, alem de ser difícil entrar, e que por mais que você circule por ai, fatalmente chega uma hora você tem que sair!!! E ser você mesmo.
Outro problema e que ter 500, 600, 800, 1000 cavalos no motor e absolutamente inútil, nas Autobahns você vai rodar a 130 km/h como todo o mundo, claro você pode pisar fundo, mas com certeza vai perder a carteira ali na primeira esquina. Cobertura radar completa, fiscalização intensiva, impedem qualquer vocação de Aírton Senna.
Mesmo na Alemanha hoje, os trechos “livres” estão reduzidos a poucos percursos em linha reta, com não mais de 10 km de extensão. E mesmo assim a lei deve mudar em breve e vai acabar a barbaridade. Dou um exemplo. Certa vez fui a Praga com meu Audi 80 2.3E pau veio. Na volta, dia escurecendo, perto de Freiburg tem um trecho com 3 pistas velocidade livre. Eu vinha “normal” entre 130-150Km/h, mais do que isso o consumo aumenta muito, e também que a 4000 rpm que equivale a 150km/h os 5 cilindros do Audi ronronam como um gatinho. Estava na ultima faixa da esquerda e percebi pelo espelho que atras vinham dois carros descascando, abri espaço e fiquei na faixa central, num piscar de olhos os caras estavam em cima, muito alem de 200 km/h. Um passou pela esquerda, uma Porsche e o outro passou pela direita, um Audi R8, coisa que se você for flagrado pela policia vai a pé pra casa, perde a carteira no ato. O problema e que mesmo numa velocidade “moderada” a minha frente na faixa central, uma guria com um Golf velhinho estava no celular a 80 km/h, o que me obrigou a frear brutalmente para não encher a traseira dela. E isso acontece diariamente. Ficou famoso um caso de um test driver da Mercedes, com uma 500 SLC, exatamente no mesmo trecho e situação, que matou uma mulher e um bebe. Processo judicial, cadeia, e os políticos verdes fazendo a maior gritaria.
O problema e que não só o mercado esta saturado, as estradas também, e andar nessas velocidades absurdas só poem em risco a vida das pessoas. Como a Alemanha è o pais do automóvel, e o lobby dos fabricantes muito poderoso, as discussões para mudar a lei se arrastam.
Outra expressão engraçada tem relação com as marcas. Claro os alemães na sua maioria compram carros fabricados na Alemanha, os suíços idem. Afinal os outros fabricantes podem ranger os dentes mas carros alemães são melhores e ponto.
Mas mesmo assim existe uma hierarquia: em alemão se diz por exemplo que Opel só compra quem não tem dinheiro para comprar coisa melhor. Se você esta no top da piramide social compra Mercedes, BMW, ou os Audis de alta gama. Se você esta no meio, a grande maioria, compra VW ou Audis mais simples, já os unhas de fome e pobres compram Opel. Mesmo assim a Opel perde 800 Euros a cada unidade produzida, esta falida, e recentemente foi vendida para a Citroen-Peugot, outra falida que deve desaparecer do mercado europeu.

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